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Coronavírus pode colocar SUS já saturado em xeque

saúde

03/02/2020

A Folha de S,Paulo destaca que a eventual chegada do novo coronavírus ao Brasil se somará a gripes e pneumonias que já matam por ano mais de 80 mil pessoas. Só o vírus influenza responde por uma média de 500 mortes anuais.

Até a noite de sexta (31), havia 259 mortos e mais de 11 mil infectados pelo coronavírus. Seu impacto no sistema de saúde brasileiro ainda é imprevisível. Dependerá do seu poder de transmissão e de mortalidade, dados ainda imprecisos, considerando que o real número de infectados é desconhecido. Ainda não há caso confirmado no país. Até sábado (1º), eram 16 suspeitos.

“Temos dois cenários possíveis: o vírus pode se espalhar com rapidez e se mostrar mais infectante, causando mais doenças e mortes, ou se enfraquecer e se tornar mais um, como o da influenza, uma gripe forte que vai e volta. Em breve, os cenários estarão mais claros”, diz a médica Fátima Marinho, do Instituto de Estudos Avançados da USP.

Mas levando em conta o fato de que o SUS já está saturado com as atuais demandas de saúde e enfrenta subfinanciamento crônico agravado pelo congelamento dos gastos em saúde, o cenário é preocupante, dizem especialistas.

“A crise econômica e consequente redução de políticas sociais enfraqueceu o sistema de saúde e a vigilância de doenças. Isso pode tornar mais vulnerável a população nas situações de pandemias e surtos internos”, afirma Marinho.

“O sistema não está bom. O SUS já está trabalhando além do limite, está sobrecarregado e com uma falta de recursos que deve ser agravada com a diminuição do orçamento da saúde. Em muitos estados não há governos primando por investimentos na área”, reforça Cláudio Maierovitch, sanitarista da Fiocruz Brasília.

O orçamento da saúde previsto para 2020 é de R$ 136 bilhões. Em 2019 foi de R$ 147 bilhões, segundo informações do Portal Transparência.

Na última quinta (30), o Ministério da Saúde anunciou que abrirá licitação para contratar cerca de mil leitos extras de UTIs. A análise do governo é que o número de leitos disponíveis é insuficiente e eles já têm alta ocupação.

A situação pode piorar se houver uma sobreposição de epidemias. O estado de São Paulo, por exemplo, já vive um aumento de casos de dengue neste ano. São 24.888 registros, com um óbito.

“Dependendo de quando o coronavírus chegar, estaremos em plena epidemia de dengue. Tudo indica que será uma epidemia grande neste ano. Se coincidir de cidades terem as duas epidemias ao mesmo tempo, é provável que tenhamos uma coisa mais séria, com serviços muito superlotados”, diz Maierovitch.

Numa fase inicial das doenças, se a pessoa não apresentar sinais muito claros da gripe (como tosse e espirros), os sintomas podem ser confundidos, segundo o médico.

“O coronavírus pode causar dor no corpo, dor de cabeça, febrão, que podem ser confundidos com os sintomas da dengue, se houver circulação simultânea dos dois vírus.”

Por isso, será fundamental ter um rápido diagnóstico clínico e laboratorial. “Ainda estamos em fase de implantação dos testes laboratoriais do coronavírus no Brasil e só em centros de referência.”

O infectologista Esper Kallás, professor da USP, lembra da calamidade que o Brasil enfrentou em 2009, durante a gripe H1N1. “Foram muitos mortos, prontos-socorros lotados, com longas filas de espera, testes sorológicos não disponíveis, leitos de UTI ocupados.”

Desde que o H1N1 chegou ao Brasil, ele passou a liderar o número de mortes entre os tipos de influenza: 2.771 óbitos até 2017, segundos dados do DataSUS obtidos pela Folha.

O maior pico de mortalidade ocorreu em 2016, com 998 óbitos —contra 968 no ano da sua chegada. O fato praticamente passou em branco porque em 2016 o país estava às voltas com o vírus da zika.

Para Maierovitch, se o perfil de uma eventual epidemia de coronavírus for parecido com a de H1N1, de 2009, o país terá condições de enfrentá-la.

“A gente precisa reforçar as condições de biossegurança nos serviços de saúde para que não haja transmissão para profissionais de saúde e para pessoas que estão nos serviços por outras razões. O país está um pouco relaxado em relação a isso”, afirma.

O secretário-executivo do ministério, João Gabbardo dos Reis, afirmou que seria publicado ainda na sexta (31) um edital para compra de equipamentos de proteção individual, como luvas, máscaras e toucas para profissionais que possam entrar em contato com casos suspeitos.

Na opinião de Kallás, o Brasil melhorou muito depois da epidemia de gripe suína de 2009, mas há muito o que se fazer. “O país sequer tem um laboratório de proteção de nível 4 [nos EUA existem oito deles]. Isso significa que não há nenhum lugar no Brasil capaz de cultivar o coronavírus.”

Não ter esse tipo de laboratório impede o país, por exemplo, de desenvolver uma vacina a partir do vírus atenuado. “Não é só para o coronavírus. Vale para o arenavírus [que causa febre hemorrágica] ou outro agente com potencial de causar epidemias.”

Para a especialista em saúde global Deisy Ventura, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, todo alarde em torno do coronavírus pode levar as pessoas a terem a equivocada impressão de que o patógeno é a maior ameaça à saúde pública mundial. “Ele não é mais do que a ponta de um descomunal iceberg.”

Segundo Ventura, só existe segurança sanitária verdadeira em sistemas de saúde capazes de oferecer acesso universal à saúde. “Apesar do seu subfinanciamento crônico e incontáveis mazelas, o SUS revelou ao mundo a síndrome congênita do vírus zika graças aos profissionais e aos centros de pesquisa que resistem aos ataques brutais à ciência brasileira.”

Na sua opinião, ninguém pode se considerar seguro em relação à detecção, prevenção e ao tratamento de doenças infecciosas se depender apenas das condições financeiras individuais, sobretudo diante de crises econômicas.

“A decadência dos sistemas universais de saúde e o avanço do mercado de seguros são hoje, juntamente com o descalabro da falta de confiança na ciência e a desinformação, a maior ameaça à segurança da saúde global.”

Fonte: Folha de São Paulo




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