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Crise climática força mercado a rever modelos de risco
mercado - 23/01/2026
A intensificação dos eventos climáticos extremos tem provocado mudanças profundas no mercado de seguros no Brasil. Os alagamentos urbanos e as secas prolongadas no campo estão forçando as empresas do setor a repensarem modelos de proteção, gestão de risco e sustentabilidade. As companhias de seguros, inclusive, estão criando incentivos para clientes que adotam medidas de mitigação de risco.
Segundo Ney Ferraz Dias, presidente da FenSeg (Federação Nacional de Seguros Gerais), inundações, enxurradas, tempestades severas (vendaval, granizo, tornados) e danos elétricos decorrentes dessas ocorrências são os eventos climáticos que mais têm pressionado o mercado segurador nos últimos anos.
“A cobertura de danos elétricos, em especial, tem sido a que mais gera sinistros no mercado brasileiro, pois, na medida em que ocorrem temporais e quedas na rede elétrica, há prejuízos significativos a eletrodomésticos, máquinas e equipamentos, podendo estar em residências ou empresas de pequeno, médio e grande porte”, afirma Ney Ferraz Dias, presidente da FenSeg.
Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), conta que, em áreas urbanas, os eventos climáticos mais comuns estão relacionados a excessos de chuva, como alagamentos, inundações e tempestades intensas. Já em áreas rurais, destacam-se condições climatológicas prolongadas, com ênfase para secas, que afetam diretamente a produção agrícola.
“A crise climática também tem impulsionado a criação de produtos voltados à transição para uma economia de baixo carbono e ao apoio a setores genuinamente sustentáveis. Entre os exemplos emergentes estão seguros para projetos de energias renováveis, como fotovoltaica e eólica, seguros agrícolas voltados a práticas sustentáveis e seguros para estoques industriais mais limpos, com restauração e preservação florestal para geração de créditos de carbono”, conta Prates.
Falta de previsibilidade
Rodrigo Curi, professor da FGV (Faculdade Getulio Vargas) e pesquisador de riscos climáticos aplicados ao setor de seguros, destaca que a volatilidade e a incerteza climática são dois principais desafios para as empresas de seguros.
“Antes, falávamos de riscos climáticos como fenômenos concentrados em certas áreas, como a seca no Nordeste ou as enchentes em vales de rios conhecidos. Hoje, costumam dizer que o clima chegou ao seu CEP”, disse Curi.
“A percepção de que um evento extremo pode acontecer em qualquer lugar, a qualquer momento, tornou-se uma realidade para todos os brasileiros.”
Essas evidências de que o Brasil não está mais fora do mapa de desastres naturais têm forçado empresas de seguros a adotar práticas de identificação, avaliação, precificação e gestão de riscos climáticos. A consideração de cenários climáticos e projeções não estacionárias, em vez da dependência exclusiva de séries históricas, tem subsidiado decisões estratégicas de longo prazo na gestão das carteiras.
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O dado é citado em estudo climático da CNseg, desenvolvido em parceria com o Hub de Inteligência Climática. A plataforma integra dados científicos, socioeconômicos e ambientais e oferece informações estratégicas para a tomada de decisão de seguradoras e gestores públicos.
Relatório periódico: publicação anual com análise do panorama de eventos climáticos extremos no Brasil e sua correlação com o setor de seguros, fornecendo diagnóstico contínuo dos efeitos socioeconômicos e seguradores dos desastres naturais.
Ferramenta de conformidade para seguros rurais: apoio à decisão das seguradoras, permitindo avaliar a aderência socioambiental dos proponentes com base na legislação ambiental.
Ferramenta de gestão de riscos climáticos físicos: permite uma avaliação qualitativa da exposição ao risco de itens segurados, considerando sua localização geográfica, fortalecendo a precificação adequada, a cobertura e a resiliência do portfólio segurado. A ferramenta já iniciou com riscos de inundação para, na sequência, incorporar outros riscos climáticos.
Demanda crescente, mas proteção limitada
Apesar dos eventos climáticos extremos estarem se tornando mais comuns — estudo da CNM (Confederação Nacional de Municípios) aponta que 93% dos municípios brasileiros foram atingidos por algum desastre natural entre 2013 e 2022 —, boa parte dos brasileiros ainda não tem proteção. Para se ter uma ideia, apenas 30% da frota de automóveis do país é coberta por seguro, segundo dados da CNseg.
“O setor agropecuário, que é o segmento econômico brasileiro mais sensível aos riscos climáticos, dada a exposição direta a eventos como secas, geadas, chuvas extremas e enchentes, tem enfrentado uma redução preocupante na área segurada: de 14 milhões de hectares em 2023 para 11 milhões em 2024, com estimativa de queda para menos de 5 milhões em 2025. Isso representa apenas 6,3% da área total de grãos, que abrange 81,8 milhões de hectares”, diz Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg.
O futuro do setor
Para especialistas ouvidos por ECOA, mais do que oferecer proteção financeira após desastres, as seguradoras devem assumir um papel estratégico na construção de resiliência climática, na indução de comportamentos preventivos e no apoio à transição para uma economia sustentável.
“O setor de seguros é peça indispensável nesse novo cenário climático que se impõe ao mundo. Sua função não começa quando o desastre acontece, mas muito antes, por meio de mecanismos de precificação e análise, o seguro envia sinais econômicos claros para a sociedade, incentivando a prevenção, a redução de vulnerabilidades e o planejamento de longo prazo”, disse Rodrigo Curi, professor da FGV.
Essa lógica de antecipação e incentivo à resiliência tende a se consolidar como prática comum. A tendência é que segurados que investem em sistemas de contenção de enchentes, por exemplo, paguem um prêmio de seguro menor.
“É nesse poder de indução que o seguro se revela como um agente de transformação social”, afirma Ney Ferraz Dias, presidente da FenSeg.
Outro aspecto fundamental para o futuro do setor é sua capacidade de fomentar práticas sustentáveis na economia real. Isso porque as seguradoras podem viabilizar investimentos, bem como oferecer descontos ou condições melhores para quem adota práticas sustentáveis, como uso racional da água, preservação de vegetação nativa ou manejo de resíduos, estimulando comportamentos positivos e tornando a sustentabilidade economicamente vantajosa.
“Projetos como recuperação de áreas degradadas, adoção de práticas agrícolas sustentáveis e implantação de tecnologias limpas frequentemente enfrentam dificuldades de financiamento devido à complexidade e ao risco percebido desses investimentos, e o setor de seguros pode ser um aliado nesse processo”, afirmou Claudia Prates, diretora de Sustentabilidade da CNseg
Fonte: UOL

